Esta semana recebi da universidade um email relativo a uma pesquisa demográfica cujos resultados seriam encaminhados a órgãos do governo. Os alunos deveriam, então, descrever a sua etnia e religião. Esse seria, na melhor das hipóteses, um procedimento desnecessário. Esse tipo de dado não deveria mais ter qualquer utilidade, e de fato não tem ― serve apenas para fazer proselitismo. Mas eles conseguiram piorar a coisa um pouco mais.
Ocorre que as respostas não eram livres; os alunos deveriam escolher sua religião e etnia dentro de uma lista pré-determinada de opções. E aí começaram os problemas…
A palavra “etnia” em geral é aplicada para descrever conjuntos de pessoas unidos por características lingüísticas, culturais e genéticas. É, portanto, um conceito complicado e de emprego cada vez mais difícil. Isso porque tais afinidades não andam juntas: nada impede que um indivíduo negro tenha como língua materna o alemão e uma cultura, digamos, judaica. E, no mundo de hoje, isso é o que mais acontece! Portanto, qualquer tentativa de enquadrar grandes grupos de pessoas dentro de categorias limitadas de etnias provavelmente resultará numa mistureba grotescamente artificial. Com a pesquisa a que fui submetido, não foi diferente.
De acordo com a lista disponível, enquadro-me dentro da categoria “outros hispânico-americanos”, ou seja, uma “pessoa das Américas Central ou do Sul ou de outra cultura hispânica, independentemente da raça”. O “outros”, no caso, serve para nos distinguir de cubanos, mexicanos e porto-riquenhos, que segundo a mesma lista constituem “etnias” à parte.
Fica evidente, pois, a artificialidade que eu havia mencionado: fui classificado dentro da mesma etnia que, sei lá, os quíchuas do Peru, com os quais não tenho afinidades lingüísticas, genéticas nem culturais. Pior, tornei-me um “hispânico”, quando não tenho qualquer relação com a Espanha e sequer sei falar espanhol.
Evidentemente, o caso é um exemplo particularmente desastrado, em que se misturam doses cavalares de ignorância e preconceito. Poder-se-ia ter elaborado uma lista com alternativas mais condizentes com a realidade. Mas o erro fundamental, repito, é anterior: fazer uma pesquisa relativa a um conceito que, entendo, já perdeu a razão de existir (se é que algum dia teve alguma).
Mas por que o governo ainda exige dados desse tipo? Acredito que faça parte do esforço para monitorar e promover o acesso de “minorias” ao ensino superior. Ou seja, é só mais uma conseqüência nefasta do pensamento racialista.
P.S.: como este semestre o STF deverá julgar a constitucionalidade das cotas raciais em universidade, e como acredito que a experiência americana tem muito a nos ensinar sobre o tema, provavelmente retornarei a ele neste blog.