quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

Nós, os "outros hispânico-americanos"

Esta semana recebi da universidade um email relativo a uma pesquisa demográfica cujos resultados seriam encaminhados a órgãos do governo. Os alunos deveriam, então, descrever a sua etnia e religião. Esse seria, na melhor das hipóteses, um procedimento desnecessário. Esse tipo de dado não deveria mais ter qualquer utilidade, e de fato não tem ― serve apenas para fazer proselitismo. Mas eles conseguiram piorar a coisa um pouco mais.

Ocorre que as respostas não eram livres; os alunos deveriam escolher sua religião e etnia dentro de uma lista pré-determinada de opções. E aí começaram os problemas…

A palavra “etnia” em geral é aplicada para descrever conjuntos de pessoas unidos por características lingüísticas, culturais e genéticas. É, portanto, um conceito complicado e de emprego cada vez mais difícil. Isso porque tais afinidades não andam juntas: nada impede que um indivíduo negro tenha como língua materna o alemão e uma cultura, digamos, judaica. E, no mundo de hoje, isso é o que mais acontece! Portanto, qualquer tentativa de enquadrar grandes grupos de pessoas dentro de categorias limitadas de etnias provavelmente resultará numa mistureba grotescamente artificial. Com a pesquisa a que fui submetido, não foi diferente.

De acordo com a lista disponível, enquadro-me dentro da categoria “outros hispânico-americanos”, ou seja, uma “pessoa das Américas Central ou do Sul ou de outra cultura hispânica, independentemente da raça”. O “outros”, no caso, serve para nos distinguir de cubanos, mexicanos e porto-riquenhos, que segundo a mesma lista constituem “etnias” à parte.

Fica evidente, pois, a artificialidade que eu havia mencionado: fui classificado dentro da mesma etnia que, sei lá, os quíchuas do Peru, com os quais não tenho afinidades lingüísticas, genéticas nem culturais. Pior, tornei-me um “hispânico”, quando não tenho qualquer relação com a Espanha e sequer sei falar espanhol.

Evidentemente, o caso é um exemplo particularmente desastrado, em que se misturam doses cavalares de ignorância e preconceito. Poder-se-ia ter elaborado uma lista com alternativas mais condizentes com a realidade. Mas o erro fundamental, repito, é anterior: fazer uma pesquisa relativa a um conceito que, entendo, já perdeu a razão de existir (se é que algum dia teve alguma).

Mas por que o governo ainda exige dados desse tipo? Acredito que faça parte do esforço para monitorar e promover o acesso de “minorias” ao ensino superior. Ou seja, é só mais uma conseqüência nefasta do pensamento racialista.

P.S.: como este semestre o STF deverá julgar a constitucionalidade das cotas raciais em universidade, e como acredito que a experiência americana tem muito a nos ensinar sobre o tema, provavelmente retornarei a ele neste blog.

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Liberalismo à brasileira

Depois de algumas semanas observando in loco os hábitos de outro povo, como um antropólogo amador, esta semana tive a oportunidade de experimentar o outro lado, e ter um pedacinho da nossa cultura dissecado por olhares estrangeiros. A Economist publicou um artigo de uma página com o título "Liberalismo no Brasil - A causa quase perdida da liberdade". Para um liberal brasileiro como eu, não deixa de ser um tema instigante.

Lendo o artigo, é impossível não se sentir proveniente de uma terra exótica. Segundo a revista, permanecemos presos ao modelo econômico intervencionista da ditadura, não existem partidos dispostos a defender causas liberais no Brasil e o próximo ocupante do Planalto será um ex-líder estudantil ou uma ex(?)-trotskysta. Como consolo, diz a Economist, os liberais brasileiros podem se orgulhar de viver em um dos países socialmente mais livres do mundo, onde ocorre a maior parada gay do planeta e todas as religiões podem ser praticadas sem obstáculos. Não sei se houve aí um quê de ironia, porque uma das maiores cargas tributárias do mundo subdesenvolvido me parece um preço alto demais a se pagar pelo direito de fazer macumba e passear sob a bandeira do arco-íris...

Brincadeiras à parte, sou obrigado a discordar de alguns diagnósticos do artigo. O primeiro é justamente esse, o de que o Brasil é um país altamente livre do ponto de vista social. Ameaças à liberdade de expressão - partindo do Judiciário, na forma de condenações por ofensas à honra, e do Executivo, através de pressões cada vez maiores sobre a imprensa - são frequentes. Leis paternalistas abundam. E a praga da correção política já se espalhou pelo país (embora essa pareça ser uma praga mundial).

A Economist também aponta como uma das causas do fracasso do liberalismo econômico no Brasil o fato de nele o voto ser obrigatório. Segundo a revista, isso significa que "um grande número de eleitores pobres, que pagam poucos impostos mas se beneficiam dos gastos do governo em bem-estar social, ajude a empurrar os partidos na direção de um estado maior". Ainda que o voto obrigatório me seja repulsivo, e a tese se mostre até certo ponto verdadeira, há aí uma grave incorreção: como no Brasil a maior parte dos tributos incide sobre o consumo, são justamente os mais pobres os mais afetados, proporcionalmente. Não se trata, portanto, de dois lobos e uma ovelha decidindo qual vai ser o jantar, mas de um condenado que cava a própria cova pensando estar desenterrando um tesouro... Portanto, acredito que um grande avanço já seria obtido caso se pudesse mostrar aos eleitores o quanto eles pagam de impostos, e que, afinal de contas, não existe almoço grátis.

Mas, segundo a revista, a coisa está melhor do que já foi: o Banco Central, na prática, é independente, o câmbio é flutuante e desde a abertura promovida por Collor as empresas do país vêm se tornando mais competitivas. Hoje já é possível até encontrar alguns liberais saindo da toca: "O Fórum da Liberdade, um encontro anual que acontece em Porto Alegre, atrai os mais dedicados membros da tribo. Mas eles também podem ser encontrados no Movimento por um Brasil Competitivo, um grupo de pressão fundado por Jorge Gerdau Johannpeter, um barão do aço; entre os influentes professores da faculdade de economia da PUC-Rio; e entre banqueiros e gerentes de empresas brasileiras envolvidas com comércio". Enquanto nada disso consegue resultados mais concretos, porém, a Economist avisa: pessoas que queiram praticar liberalismo econômico no Brasil não o devem fazer em público...

sábado, 30 de janeiro de 2010

Liberdade de expressão

Quando estudamos liberdade de expressão, em direito constitucional, é comum analisarmos outros direitos fundamentais que podem, eventualmente, limitá-la. Entre os exemplos mais comuns - e polêmicos - estão a privacidade e a honra. Recentemente, porém, deparei-me com uma questão inusitada, e que nunca havia me ocorrido: pode a liberdade de expressão de uma pessoa restringir a das demais? Ou, em juridiquês, é a liberdade de expressão um limite extrínseco da própria liberdade de expressão?

No dia 21 de janeiro, o general David Petraeus, ex-comandante das forças internacionais no Iraque, e atual chefe do comando central do exército americano, veio a Georgetown para dar uma palestra sobre o andamento das guerras em que os Estados Unidos atualmente se encontram. Sem dúvidas, um evento importante que atraiu a atenção de toda a universidade.

Nem bem Petraeus havia começado a falar, no entanto - conto pelo que li nos jornais e ouvi dos presentes; infelizmente (ou felizmente) não pude ir à palestra -, e um manifestante contrário às guerras levantou-se na plateia e começou a ler em voz alta nomes de vítimas dos conflitos, interrompendo a fala do convidado. Seguindo a política de liberdade de expressão da universidade, o manifestante foi advertido três vezes antes de ser expulso do auditório. Assim que isso foi feito, porém, outra pessoa se ergueu e começou a manifestar-se da mesma forma. A cena se repetiu por mais de dez vezes. Resultado: quando o protesto terminou, já era quase o fim do horário reservado para a palestra. E, por causa de uma dúzia, centenas foram privados do direito de assistir à apresentação à qual compareceram.

Então, retomo a minha pergunta: até que ponto vai a "liberdade" dessa minoria sectária? - digo sectária porque na plateia certamente havia pessoas favoráveis e contrárias à guerra, todas dispostas a escutar o general e sabendo que aquela não era a ocasião adequada para discutir a legitimidade do conflito, muito menos da maneira como isso foi feito. Será mesmo correto afirmar que essa liberdade existe?

Entendo que não, e felizmente a maior parte da universidade concordou comigo: esta semana, foi organizado um protesto contra as manifestações do dia 21, o qual reuniu muito mais gente.

Mas eles não se cansam. Alkis Downward, um dos arruaceiros, disse ao "The Hoyas" que "embora algumas pessoas possam achar que não foi a coisa certa a se fazer no momento, o conteúdo, a essência, são muito mais importantes do que a maneira pela qual se age". Pela lógica do sr. Downward, portanto, não haveria problemas caso ele atirasse no gal. Petraeus como forma de protesto; o que importa, afinal, é o conteúdo.

Mas os meios importam, sim. Como costuma dizer Reinaldo Azevedo, eles qualificam os fins. E a liberdade de expressão serve para que todas as opiniões possam ser ouvidas, e não como escudo para que umas calem as outras.

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

O Haiti mental

Li um dia desses que Fidel Castro criticou a atuação americana no Haiti. Normalmente, não devemos nos importar com o que diz o ditador aposentado. Salvo para os pobres coitados que tiveram o azar de nascer em Cuba, ele é hoje apenas alguém que até o diabo rejeitou. Mas, neste caso, ele vocaliza um antiamericanismo bocó bem mais influente do que parece.

Como noticiou Reinaldo Azevedo, o "Blog da Dilma Presidente" (sim, isso existe) dá destaque à "notícia" de que o terremoto no Haiti teria sido provocado pelo exército americano. A mesma acusação parece ter sido feita por Hugo Chavez. E até jornais sérios, como a Folha de S. Paulo, deram espaço a intelectuais que procuram denunciar uma conspiração dos Estados Unidos contra a democracia haitiana.

Do lado menos carnavalesco do hospício, vieram reclamações de diplomatas - sobretudo brasileiros e franceses - quanto ao status das tropas americanas no Haiti. O comando das operações, diziam, deveria ficar por conta da ONU.

Com a devida vênia, é essa mentalidade que conspira contra o Haiti. Com o país mais devastado do que nunca, tudo o que a população quer é que as coisas voltem a funcionar o mais rapidamente possível. E se os EUA têm mais recursos e expertise para fazer isso que qualquer outro país do mundo, como ficou rapidamente demonstrado, que eles se encarreguem da operação.

Não é hora de inventar teorias conspiratórias. E, pelo que vejo aqui, a população americana está genuinamente interessada em ajudar. Vejo com frequência campanhas arrecadando recursos, e pessoas dispostas a doar.

Porém, mais cruel ainda é transformar o Haiti em palco para nossas ambições diplomáticas neste momento. O terremoto em Porto Príncipe foi catastrófico, mas podemos e devemos fazer muita coisa para minorar essa desgraça. Mas a cabeça de algumas pessoas parece um Haiti mental, abalado por um terremoto de ideologias. Nesse caso, o que se pode fazer?

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

O método socrático

Sócrates, considerado um dos pais da filosofia ocidental, notabilizou-se não apenas por suas teorias - trazidas até nós pelas mãos de seu mais ilustre discípulo, Platão, já que ele nada escreveu -, mas também por seu método de ensino.

O método socrático consiste, num resumo grosseiro, em um conjunto de perguntas que o "mestre" faz aos seus interlocutores procurando levá-los a construir, eles mesmos, o conhecimento. Assim, ao invés de o professor meramente despejar conhecimento sobre os alunos, enquanto estes assistem passivamente, ele questiona cada resposta que dão, para que seja reformulada e refinada até onde for possível.

Na Atenas do século V A.C., tal método custou caro a Sócrates. Seu hábito de estimular os alunos a questionar todo conhecimento que lhes era transmitido desagradava a muitos, o que eventualmente lhe rendeu acusações de "corrupção da juventude" e "desrespeito aos deuses". Sócrates acabou condenado à morte.

O método socrático, contudo, sobrevive, e é uma experiência incrível assistir a aulas nele inspiradas. E aqui nos EUA isso é relativamente comum. Aulas no método socrático são mais desafiadoras, pois obrigam os alunos a estar sempre em dia com a matéria para que possam responder às perguntas do professor. Mas são também mais construtivas e recompensadoras, pois o conhecimento assim adquirido não é do tipo que se esquece logo após a prova...

No Brasil, pelo que tenho tido a oportunidade de ver, algumas iniciativas aqui e acolá procuram introduzir o método socrático nas universidades. Há, porém, diversos obstáculos no caminho. Os alunos brasileiros não estão acostumados a esse cultura, e não é realista esperar deles que tenham sempre lido as leituras recomendadas. Além disso, os próprios professores na maior parte das vezes não foram formados dentro deste método, de modo se torna difícil extrair dele todo o proveito. A implantação desse modelo, creio eu, só seria possível caso praticada de forma sistemática desde os primeiros anos da faculdade, dentro de um projeto pedagógico estruturado nesse sentido.

Está aí mais uma razão para que devêssemos nos engajar na atração de escola de renome no exterior para o nosso país.

sábado, 16 de janeiro de 2010

Uma lição do Qatar

Entre os alunos intercambistas em Georgetown, um número significativo vem do Qatar. Isso me surpreendeu, uma vez que se trata de um país pequeno e de que raramente ouvimos falar. Mas, conversando com eles, entendi o porquê, e descobri que talvez tenham uma lição a nos ensinar.

Desde 2005, a Georgetown University mantém um campus no Qatar. Toda a metodologia que a universidade usa nos Estados Unidos é repetida lá. As aulas são em inglês, e os professores também são daqui, passando lá metade do ano. Apenas as matérias ministradas possuem um enfoque mais regional. Ou seja: os cidadãos do Qatar têm a oportunidade de estudar, em seu próprio país, em uma universidade americana de ponta, certamente a um custo sensivelmente menor do que teriam caso fossem cursar toda a faculdade no exterior. Além disso, o campus de Doha atrai alunos de todo o Oriente Médio (na verdade, entre os estudantes de lá que conheci há indianos, libaneses, paquistaneses, egípcios... mas nenhum que tenha de fato nascido no Qatar!)

Então eu me pergunto: por que o mesmo não acontece no Brasil? Certamente os fatores são vários, e devem mesmo incluir barreiras legais. Mas a verdade é que as autoridades responsáveis pela nossa educação ainda estão no século passado (ou seria retrasado?), cantalorando dogmas como "a educação não é mercadoria", e não estão nem um pouco preocupadas em atrair esse tipo de investimento. Assim, negamos aos brasileiros uma oportunidade incrível, e de quebra perdemos a chance de atrair cérebros de toda a América Latina.

E vamos seguindo em frente com esse modelo que já nos rendeu quantos prêmios Nobel, mesmo?

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

Sarah Palin está de volta

O furacão que chacoalhou a na maior parte do tempo aborrecida corrida eleitoral americana de 2008 está de volta. Sarah Palin agora estará na televisão - e desta vez não será na pele de sua sósia involuntária, a comediante Tina Fey.

Palin foi contratada, por valor não divulgado, para ser comentarista política na Fox News. Irá se juntar a outros membros do Partido Republicano - ou GOP (Grand Old Party), como dizem por aqui - que já trabalham para a emissora, a exemplo de Mike Huckabee.

A contratação de Palin, somada à linha editorial da emissora, reforça a crítica de Obama de que a Fox News é um veículo de oposição. Mas essa é, na verdade, sua maior virtude. E também uma virtude dos Estados Unidos. Em outras partes do mundo, várias razões concorrem para que todos sejam obrigados a fingir isenção. Mas sempre é melhor quando o jogo é aberto.

A propósito, Sarah Palin também lançou um livro de memórias (http://en.wikipedia.org/wiki/File:GoingRogue.jpg). Acha bizarro? Pois eu já li que Dilma Rousseff está atrás de alguém para escrever sua "autobiografia"...